Já perdi a conta de quantas vezes iniciei e abandonei diferentes blogs, sites, etc. E as mesmas questões sempre se recolocam: Por que escrever? Por que publicar? O que fazer dos textos anteriores? O que fazer dos textos futuros?
Nesse novo recomeço, sinto que preciso mais uma vez passar por essas perguntas básicas. Cada vez mais percebo que escrever (mas não necessariamente publicar) é praticamente uma necessidade minha. É meu segundo método preferido para organizar meus pensamentos e definir minhas opiniões. É verdade que acho imensamente preferível falar que escrever. Mas falar seriamente sobre algo envolve uma dificuldade quase sempre proibitiva: é preciso ter interlocutores com os mesmos interesses e que saibam manter uma discussão agradável. Ser professor é uma grande vantagem nesse aspecto, pois quando se encontram aqueles três ou quatro alunos realmente interessados, dar aula se torna uma das melhores experiências intelectuais possíveis (e, inversamente, uma das piores quando os alunos ficam apenas esperando o tempo passar). A liberdade do discurso oral, a possibilidade de ouvir argumentações contrárias e a necessidade de fazer com que suas palavras façam sentido real para as pessoas que estão presentes forçam o professor a adquirir muito mais clareza sobre o que ele mesmo está expondo. Mas claro que há também os “poréns” e “entretantos”; o discurso escrito possui também suas vantagens. É mais fácil se distanciar de suas próprias opiniões quando podemos lê-las após certo tempo; o texto escrito força uma cuidado maior com a estrutura lógica de um argumento, que tende a ser saltada em favor de rodeios retóricos no discurso oral; por fim, o texto escrito pode ser analisado de modo mais racional por leitores posteriores (se bem que, com a difusão dos podcasts e variantes, esse ponto tende a se tornar mais relativo).
Evidentemente, o ideal é quando não precisamos escolher: alternar aulas e publicações sobre temas adjacentes me parece ser o melhor modo de encaminhar a vida acadêmica. Infelizmente, no momento não tenho essa opção: como bolsista do doutorado, preciso me dedicar exclusivamente ao término da tese (o que espero estar razoavelmente próximo), antes de poder voltar a ensinar.
Porém, se escrever é um bom método de aprender, é também verdade que nem todos os escritos servem aos mesmos fins. Há aqueles textos que escrevemos simplesmente por atividade escolar, onde o objetivo é mostrar que somos capazes de reproduzir certos raciocínios e não de produzir um pensamento próprio. Não há nada de errado com essas atividades em si mesmas, sendo elas mesmo necessárias para a organização do trabalho universitário (o que é sempre difícil de transmitir aos alunos mais jovens), mas seria um erro achar que elas constituem toda a vida intelectual. Mesmo as produções científicas (as teses, os papers e os artigos apresentados em conferências) servem apenas parcialmente a esse propósito didático. Via de regra, como serão objeto de escrutínio por parte de algum comitê científico, esses textos tendem a evitar os pontos mais polêmicos e se ater aquilo que o autor está mais seguro de poder sustentar. Por isso mesmo, há infelizmente uma tendência para uma certa timidez teórica nesses textos; a expectativa das críticas naturalmente faz com que as pessoas deixem suas posições mais fortes e polêmicas para ocasiões menos formais, como salas de aula ou grupos de pesquisa; com a exceção, claro, dos pesquisadores mais experientes e talentosos, que possuem mais disposição para enfrentar as críticas.
Talvez haja algo que posse ser feito institucionalmente para facilitar a circulação de idéias discordantes e inovadoras (talvez as conferências e os periódicos possam organizar mais debates, por exemplo), mas no nível individual, creio que os blogs oferecem um ótimo caminho para esse tipo de texto “intermediário” que estou tentando definir. Talvez uma idéia que não esteja ainda amadurecida o suficiente para ser apresentada em uma conferência ou em uma revista acadêmica, seja interessante o suficiente para ser discutida sem maior compromisso em blogs e outros sites. Além disso, um espaço mais informal pode nos permitir aplicações mais ousadas de reflexões tipicamente acadêmicas. Por exemplo, o que escrevi acima sobre a relação entre discurso oral e escrita compõe boa parte da discussão sobre o Fedro de Platão, diálogo que estudei durante o mestrado. Porém, um pesquisador da área, apesar de sentir confortável em comentar detalhes minuciosos da terminologia e da argumentação platônica em um contexto mais formal, provavelmente hesitaria em saltar do diálogo para os raciocínios que fiz acima, pois evidentemente não encontraria neles o rigor que se espera em um ambiente escolar. Por isso mesmo, creio que talvez a principal barreira para esse tipo de “ambiente intermediário” seja o receio por parte da comunidade acadêmica de que suas reflexões mais ousadas sejam vistas como sinal de falta de rigor científico. Espero, aliás, que não me acusem disto (como antídoto planejo ir publicando alguns artigos acadêmicos na medida em que os for escrevendo – esperemos que em um ritmo menos embaraçoso que o atual).
De todo modo, ao lado desse trabalho mais escolástico (perdoem-me o termo pomposo), sinto falta de poder explorar com mais liberdade uma série de intuições, impressões e raciocínios (termos bem escolhidos, aliás, e que devo explorar no futuro) que me surgem durante os estudos. Portanto, espero que o principal conteúdo original desse blog seja justamente uma série de ensaios pessoais sobre os problemas filosóficos que me interessam, sem preocupações excessivas com questões especializadas.